Tenho refletindo sobre tudo aquilo que já andei
escrevendo. De repente, dei-me conta de que, embora meus escritos tratem de
assuntos diferentes, sob óticas também diversificadas, sempre acaba despontando
neles aquilo que eu chamo de “o meu eu educador, aquele menino que virou homem
e que agora anseia comunicar experiências.
Aí comecei a rever meus paradigmas.
Percebi que a minha educação foi muito rígida. Não tive
o privilégio dos meninos que usavam “ray-ban”; só usei óculos de lentes
transparentes e descoloradas. Então fiquei muito linear, com a visão “engessada”;
as minhas atitudes dogmatizadas e estandardizadas.
Quando disse “dei-me conta”, na verdade quis dizer
“ainda dei-me conta” porque já faz alguns anos que aconteceu esse “dei-me
conta”. Desde então, tenho procurado ler a vida com óculos de lentes coloridas.
Uma delícia!Um dia você bota o “ray-ban” de lentes azuis; no outro, de lentes
violetas; num outro, o de lentes rosa... vermelhas e assim vai colorindo a
existência com um sem número de possibilidades. Uma beleza!
A vida se transforma num imenso arco-íris. Não é que
as coisas ruins desaparecem. Elas continuam lá, mas mudadas. Quando você está
usando lentes coloridas, não vê apenas as coisas boas coloridas. É lógico que o
Cristo Redentor, a Torre Eiffel, a Estátua da Liberdade e as Pirâmides do Egito
ficam coloridos. Mas também ganham cores a Favela da Rocinha, lá no Rio de
Janeiro, o Morro do Urubu, aqui em São Paulo, o Vale do Jequitinhonha, lá em Minas
e até a tristeza árida do sertão nordestino!
Chamo isso de “a mágica dos óculos de lentes
coloridas”.Outro dia, li num livro sobre psicanálise que o homem tem duas
dimensões: a real e a imaginária. E concordei com o autor que a dimensão
imaginária é muito, mas muito mais importante do que a dimensão real. Quem não
sonha, não realiza. E quem não consegue enxergar o mundo colorido está condenado
a vivê-lo em preto e branco.
Mas para enxergar o mundo colorido é preciso
treinamento e...vontade de ser feliz.Sabe por quê? Porque, quando éramos
pequenos ensinaram-nos a ver tudo em preto e branco. A gente tinha vontade de
brincar, mas “era hora de fazer os deveres escolares”.
A gente acelerava para terminar os “deveres escolares”
rapidinho a fim de aproveitar o tempo que sobrava para empinar pipa, mas aí já
era “hora de tomar banho”. Aí a gente tomava banho correndo para ver, pelo
menos um pedacinho do “Chaves”(no meu tempo, o desenho “As aventuras de Jambo e
Ruivão”), mas aí era hora dos adultos assistirem ao capítulo da novela ou o
telejornal! Resultado: hora de dormir em preto e branco para que (se a sorte
ajudasse, pelo menos pudesse sonhar um pouco colorido).
Então, fico pensando: hoje, enquanto educadores, se
não tivermos o cuidado de nos reciclar ou, como costuma dizer uma amiga, se não
tivermos a preocupação de nos repaginar, tornamo-nos meros clones daqueles que
nos ensinaram, e repassamos para os nossos alunos o mesmo “grude” (a turminha
de hoje diria “gororoba”) insosso e chato que aprendemos, e o enfiamos goela
abaixo de nossos alunos, no mesmo tom preto e branco com os qual fomos ensinados.
É por isso que, para enxergarmos o mundo colorido, é preciso ter treinamento e vontade
de ser feliz.
E para passarmos para os nossos alunos a capacidade de
construção de uma aprendizagem bem estruturada, é preciso ter também esta outra
capacidade: a de enxergar o mundo com óculos de lentes coloridas!

