sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A MÁGICA DOS ÓCULOS DE LENTES COLORIDAS



Tenho refletindo sobre tudo aquilo que já andei escrevendo. De repente, dei-me conta de que, embora meus escritos tratem de assuntos diferentes, sob óticas também diversificadas, sempre acaba despontando neles aquilo que eu chamo de “o meu eu educador, aquele menino que virou homem e que agora anseia comunicar experiências.

Aí comecei a rever meus paradigmas.

Percebi que a minha educação foi muito rígida. Não tive o privilégio dos meninos que usavam “ray-ban”; só usei óculos de lentes transparentes e descoloradas. Então fiquei muito linear, com a visão “engessada”; as minhas atitudes dogmatizadas e estandardizadas.

Quando disse “dei-me conta”, na verdade quis dizer “ainda dei-me conta” porque já faz alguns anos que aconteceu esse “dei-me conta”. Desde então, tenho procurado ler a vida com óculos de lentes coloridas. Uma delícia!Um dia você bota o “ray-ban” de lentes azuis; no outro, de lentes violetas; num outro, o de lentes rosa... vermelhas e assim vai colorindo a existência com um sem número de possibilidades. Uma beleza!

A vida se transforma num imenso arco-íris. Não é que as coisas ruins desaparecem. Elas continuam lá, mas mudadas. Quando você está usando lentes coloridas, não vê apenas as coisas boas coloridas. É lógico que o Cristo Redentor, a Torre Eiffel, a Estátua da Liberdade e as Pirâmides do Egito ficam coloridos. Mas também ganham cores a Favela da Rocinha, lá no Rio de Janeiro, o Morro do Urubu, aqui em São Paulo, o Vale do Jequitinhonha, lá em Minas e até a tristeza árida do sertão nordestino!

Chamo isso de “a mágica dos óculos de lentes coloridas”.Outro dia, li num livro sobre psicanálise que o homem tem duas dimensões: a real e a imaginária. E concordei com o autor que a dimensão imaginária é muito, mas muito mais importante do que a dimensão real. Quem não sonha, não realiza. E quem não consegue enxergar o mundo colorido está condenado a vivê-lo em preto e branco.

Mas para enxergar o mundo colorido é preciso treinamento e...vontade de ser feliz.Sabe por quê? Porque, quando éramos pequenos ensinaram-nos a ver tudo em preto e branco. A gente tinha vontade de brincar, mas “era hora de fazer os deveres escolares”.

A gente acelerava para terminar os “deveres escolares” rapidinho a fim de aproveitar o tempo que sobrava para empinar pipa, mas aí já era “hora de tomar banho”. Aí a gente tomava banho correndo para ver, pelo menos um pedacinho do “Chaves”(no meu tempo, o desenho “As aventuras de Jambo e Ruivão”), mas aí era hora dos adultos assistirem ao capítulo da novela ou o telejornal! Resultado: hora de dormir em preto e branco para que (se a sorte ajudasse, pelo menos pudesse sonhar um pouco colorido).

Então, fico pensando: hoje, enquanto educadores, se não tivermos o cuidado de nos reciclar ou, como costuma dizer uma amiga, se não tivermos a preocupação de nos repaginar, tornamo-nos meros clones daqueles que nos ensinaram, e repassamos para os nossos alunos o mesmo “grude” (a turminha de hoje diria “gororoba”) insosso e chato que aprendemos, e o enfiamos goela abaixo de nossos alunos, no mesmo tom preto e branco com os qual fomos ensinados. É por isso que, para enxergarmos o mundo colorido, é preciso ter treinamento e vontade de ser feliz.

E para passarmos para os nossos alunos a capacidade de construção de uma aprendizagem bem estruturada, é preciso ter também esta outra capacidade: a de enxergar o mundo com óculos de lentes coloridas!


A ARCA DE NOÉ OU O TITANIC?



(ou "O ANEL QUE TU ME DESTES ERA VIDRO E SE QUEBROU")

“A Arca de Noé foi construída por amadores e o Titanic por especialistas”. Essa frase, quando lida por mim, pela primeira vez, criou uma série de “minhocas” em minha cabeça. E, como, com quase tudo o que acontece em minha vida, logo a associei à educação que, para dizer a verdade, constitui (embora não me considere nenhum psicótico) o “meu mundo particular” – o mundo para onde me retiro para as minhas reflexões e os meus “insights”. Logo, então pensei com os meus botões: “onde é que eu me encaixo nessa estória?”.Durante minha vida, tenho tido a oportunidade de estudar em diversas faculdades e diferentes cursos, inclusive um de Mestrado em Educação. Se levasse em conta apenas cursos e escolas, poderia colocar-me na posição de “especialista”.

Mas, considerando a Escola da Vida, creio que ainda devo categorizar-me como “amador”, pois, como o leitor poderá descobrir com a leitura deste blog, ainda continuo na condição de “sujeito aprendente”, proposta por Paulo Freire. Então, entre os “amadores”, construtores da Arca de Noé, e os “especialistas”, construidores do Titanic, descobri que, para meu próprio bem, é melhor que fique com a primeira opção. E procurei tranquilizar-me com essa ideia. Mas a mente da gente não dá trégua. É, ao mesmo tempo, insistente e persistente. A insistência, às vezes, pode ser considerada “burra”, mas a persistência geralmente constitui uma virtude.

Vai daí que, temperando amador com especialista; conhecimentos aprendidos com experiências vividas, propus a mim mesmo a seguinte questão:“Como um professor “da velha guarda”, formado segundo o paradigma do modernismo clássico; e estando atuando numa escola que funciona segundo um novo paradigma, a chamada “escola pós-moderna”, tendo que ter “jogo de cintura” para adaptar-me a ela, em que espécie de educador tenho me transformado?

“Isso me fez ver que, ao contrário do que se poderia esperar, minha experiência, digamos “moderna” tem sido muito útil para a educação que procuro praticar na escola “pós-moderna”“. Do fruto dessas minhas “minhocações” nasceram os textos que o leitor agora tem em mãos.

Embora possa não parecer, a princípio, eles guardam uma identidade comum e um elo que os une: a preocupação com a qualidade de ensino e com os contornos que estamos produzindo na escola pós-moderna.

A escolha do título foi baseada numa citação de Miguel Arroyo, na qual, discorrendo sobre a fala de uma colega sua, também professora, lembra a canção infantil (tratamos disso em um dos textos) “o anel que tu me destes era vidro e se quebrou”, que o autor da melodia usa, metaforicamente, para representar o pouco amor do amado.

Assim como para aquela professora, para nós também, a metáfora do “anel de vidro quebrado” simboliza a fragilidade do aluno “pós-moderno”, que, vítima da globalização e do neoliberalismo inclemente, tem a sua infância emocionalmente estilhaçada, tornando-se um adolescente “adultizado”, com o qual temos que conviver sabiamente, para minimizar esse trauma.

De resto, se não tivermos condições de construir um “Titanic” turbinado e reprogramado, que possamos erigir, ao menos, uma “Arca de Noé” decente e lúdica para os nossos alunos.Jamais, porém, uma “Torre de Babel”.

Que nossa conversa, neste blog, possa ajudá-lo neste propósito.

Boa Leitura!



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